Seu tempo, seu corpo, seus pertences

Passageiros espremidos dentro de um ônibus lotado

O ônibus está lotado, com todo mundo se espremendo. Alguém usa sua caneta sem pedir e ainda a leva embora. Seu parceiro ou seu médico se atrasa para o horário marcado. O que essas situações têm em comum, além de deixarem você muito irritado?

As três situações envolvem limites, embora tenham naturezas e gravidades diferentes.

Pessoas próximas conversam enquanto uma delas demonstra desconforto

A sociedade — ou o senso comum — costuma minimizar o incômodo ou atribuir adjetivos ofensivos ao “fresco que não gosta de lugar cheio”, ao “mesquinho que cobra os cinco reais que o amigo ficou devendo” ou ao “intolerante que não suporta um atraso de quinze minutinhos”.

 Ninguém precisa se sentir mal por não gostar dessas situações ou por tentar evitá-las e corrigi-las de maneira respeitosa.

Na literatura sobre habilidades sociais, Vicente Caballo apresenta uma lista de direitos assertivos. Um deles diz:

 “Você tem o direito de decidir o que fazer com seu corpo, seu tempo e sua propriedade.”

Quantas vezes você se sentiu contrariado, irritado ou ofendido por uma situação que parecia corriqueira, mas violava algum desses limites?

Pessoa restringe o acesso aos próprios recursos após sucessivos desrespeitos
PROPRIEDADE

Reconhecer propriedade e consentimento organiza a convivência e protege limites.

Dividir pode ser importante, mas deve ser uma decisão. Portanto, se algo não é seu, se você não comprou nem fez, não use sem antes pedir e receber o consentimento do proprietário. Se quebrar ou perder, reponha. O mesmo vale para aquilo que pertence a você.

Nenhuma relação está dispensada desse cuidado: amizade íntima, casamento, filiação ou qualquer outro vínculo.

Relações íntimas entre amigos, pais e filhos ou cônjuges não suspendem limites. Na realidade, devem ser um motivo a mais para fortalecê-los e preservar adequadamente o vínculo.

CORPO

No que diz respeito ao corpo, vale o mesmo princípio: não toque nem se aproxime de forma invasiva sem consentimento.

Essa discussão tem recebido cada vez mais atenção em campanhas de conscientização. Durante muito tempo, o corpo feminino foi tratado como patrimônio masculino, assim como o corpo infantil foi considerado irrestritamente sujeito à vontade dos cuidadores.

Hoje se fala abertamente sobre o problema de presumir que determinadas relações autorizem a violação de direitos ou suspendam limites.

A violação repetida dos limites das crianças em relação ao próprio corpo, tempo e propriedade pode dificultar o desenvolvimento da autonomia, da autoproteção e do respeito aos limites alheios.

TEMPO

Relógio representa o impacto dos atrasos sobre o tempo alheio

“Tempo é dinheiro.” Quem nunca ouviu essa frase, jogue o primeiro real!

Brincadeiras à parte, fica a mensagem de que o tempo tem valor não apenas financeiro, mas também de vida. Contamos nossa existência a partir do tempo vivido, e cada segundo importa porque não volta mais.

Atrasos repetidos e sem comunicação podem ser vividos como desconsideração.

Quando alguém se atrasa ou falta a um compromisso sem avisar, impede que a outra pessoa decida o que fazer com o próprio tempo.

Imprevistos acontecem, é claro. Mas não devem ser tratados como regra. Sejam dez minutos ou uma hora, aquele tempo poderia ter sido usado de outra maneira. Quando não há explicação nem comunicação, pode permanecer a sensação de que o outro considera pouco importante o nosso tempo — e, por extensão, a nossa vida.

COMO LIDAR COM ESSAS QUESTÕES?

Você pode pedir uma mudança de conduta e expressar como se sente diante do ocorrido — duas atitudes que também fazem parte de uma comunicação assertiva.

Isso não significa que o outro necessariamente mudará seu comportamento e tudo será lindo dali em diante. Não! Mas, ao dizer como se sente e explicar o que precisa ser diferente, você oferece à pessoa a oportunidade de agir com mais consideração.

Se ela desrespeitar seus limites repetidamente, você poderá decidir não disponibilizar novamente seu tempo, seu corpo ou seus recursos materiais nas mesmas condições.

Estabelecer consequências e restringir o acesso indevido aos seus recursos pode ser necessário. Isso não deve funcionar como punição ou tentativa de controlar o outro, mas como uma forma de proteger seus próprios limites.

A perda da oportunidade de se relacionar com você poderá ou não produzir mudanças no comportamento da outra pessoa. O mais importante, porém, é que sua proteção não dependa exclusivamente da decisão dela de mudar.

Lembre-se: estas reflexões são gerais e não substituem a análise das particularidades de cada situação. Quando houver sofrimento persistente, dificuldade para estabelecer limites ou relações marcadas por controle, coerção ou violência, procure apoio profissional e uma rede de proteção adequada.

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