
Uma adolescente me alvejou com uma saraivada de questões sobre redes sociais e atualidades, e a decepção a cada “não” era quase tangível. Ao final, quando, derrotada, perguntou o que eu fazia nas horas vagas, respondi que escrevia para um blog e estava montando um podcast sobre comportamento.
Saí do modo “será que ela vai aguentar o tédio que estou produzindo com a minha vida?” para “nossa, eu não consumo, mas produzo”.
E vi beleza em cada não.
Estávamos interagindo em diversos níveis ali, inclusive, indiretamente, como consumidora e produtora.
Interessante é que conversamos também sobre o que ela chama de machocentrismo: garotas cujos interesses gravitam em torno de serem vistas, validadas, aceitas, desejadas e aprovadas por homens heterossexuais.
Nossos 28 anos de diferença foram superados pela mesma constatação: seres humanos que deixam outros seres humanos carentes, inseguros, confusos, sobrecarregados ou diminuídos – e ainda ocupam grande parte de seu tempo frisando como precisam se ajustar para solucionar tudo isso – não podem ser o centro da vida de ninguém.
Não falamos sobre de quem é a responsabilidade. Se de quem coloca alguém no centro ou de quem não aceita ser centro, mas também não recusa esse lugar.
A ideia precisa ser contestada, não as pessoas.
Ver-se no direito de validar ou não o comportamento de outra pessoa, tendo como principal critério o quanto aquilo lhe agrada, não é respeitoso, não é digno, não é humano.
Parece absurdo demais para ser tão comum, mas é.
Talvez porque tenha se tornado cada vez mais caro manter o básico. As migalhas alimentam como o banquete por alguns instantes – só que chegam mais rápido, com mais frequência e a um custo muito menor do que uma nutrição emocional exercitada, escolhida e consciente.
De qualquer forma, as pessoas estão cansadas, tristes, insatisfeitas e confusas.
E isso importa. Muito.
Porque o incômodo obriga a questionar.
E, uma vez que algo é visto, não há volta: fica muito mais difícil continuar oferecendo o centro da própria vida a quem nunca deveria tê-lo ocupado.
Não seria inútil lembrar que as mesmas redes sociais que nos apresentam diariamente a pauta da vilania do indivíduo costumam se retirar discretamente da discussão sobre seu próprio papel institucional como centro ideológico. Mostram e ocultam na medida exata para que as migalhas continuem chegando – antes que a fome emocional tenha tempo de gritar perguntas contra elas.
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