Na força da repetição

Você se torna aquilo que faz repetidamente?

Antes fosse, assim, tão simples.

Dos mesmos diretores de “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem para você” e “A boca transborda aquilo de que o coração está cheio”, chega a repetição como método para tornar-se: uma ideia que reduz a identidade a um fenômeno tão simples que beira o absurdo.

Existe importância na repetição?

Existe, sim. Muita.

Mas há características históricas, contextuais e individuais no meio.

Quando dizem que, na psicologia, 2 + 2 nem sempre somam 4, é disso que se está falando.

A pessoa que percebe em si uma necessidade, uma dor ou uma incoerência não tem simplesmente o sintoma colocado no alvo para, em seguida, receber uma solução isolada.

O trabalho é arqueológico, geográfico, funcional, biográfico.

E, portanto, diretivo, mas não direto.

Acompanhar processos terapêuticos consistentes ao longo do tempo permite vislumbrar o vai e vem da maré da vida, em que a espuma da onda que acabou de quebrar é engolida por outra antes mesmo de cumprir seu ciclo inteiro.

A vida não suspende seu movimento enquanto alguém tenta mudar.

Uma compreensão recém-adquirida encontra uma relação antiga. Um limite que começa a ser construído esbarra em uma culpa conhecida. Uma nova forma de agir convive, durante algum tempo, com maneiras anteriores de compreender a si mesmo.

Poucos recursos são tão relevantes à saúde mental quanto o aperfeiçoamento da identidade.

E ele não acontece por simples reprodução.

Há dor, reconhecimento, aprofundamento, compreensão, redirecionamento e acomodação. Há aquilo que se aprende, aquilo que se abandona, aquilo que precisa ser reinterpretado e aquilo que finalmente encontra um lugar possível dentro de nós.

Perceba como a repetição mimética de algo que se deseja passa longe disso.

Reproduzir tem seu valor histórico, cognitivo e social. É pela imitação que adquirimos inúmeros repertórios. É também pela repetição que habilidades se consolidam, respostas se tornam disponíveis e novas possibilidades deixam de parecer completamente estrangeiras.

Mas aprender a fazer algo não é necessariamente tornar-se aquilo.

Uma pessoa pode repetir comportamentos assertivos e continuar acreditando que não tem direito de ocupar espaço. Pode reproduzir segurança enquanto organiza a própria existência ao redor da aprovação alheia. Pode aprender a funcionar muito bem dentro de estruturas que lhe fazem mal.

O comportamento observável e a organização subjetiva não são a mesma coisa.

Talvez algumas mudanças comecem mesmo pela repetição. Primeiro fazemos. Depois experimentamos. Testamos. Estranhamos. Repetimos outra vez.

Mas, para que algo deixe de ser apenas repertório e passe a compor identidade, precisa encontrar lugar em uma história.

Precisa exercer sentido. Nem ter, nem fazer. Exercer: adaptar-se repetidamente para permanecer — não imóvel, mas em execução.

A sobrevivência humana depende enormemente da capacidade de adaptação.

Saúde mental, porém, é bem mais do que sobreviver adaptado.

Uma pessoa pode funcionar, produzir, sorrir, cumprir suas obrigações e repetir perfeitamente tudo aquilo que aprendeu – e ainda assim permanecer profundamente distante de si.

Porque não somos apenas aquilo que repetimos.

Somos também aquilo que compreendemos, integramos, transformamos e, finalmente, reconhecemos como algo que nos expande, delineia, identifica.

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